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sábado, 28 de maio de 2011

AMAR A MORTE
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Amar de peito aberto a morte. 
Não de esguelha, de frente. 
Amar a morte, 
digamos, 
despudoradamente. 

Amá-la como se ama 
uma bela mulher 
e inteligente.Amá-la 
diariamente 
sabendo que por mais 
que a amemos 
ela se deitará 
com uns e outros 
indiferente.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

FASCÍNIO
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis. 
Não deveria, dizem. 
Me esforço. Aliás, 
já nem me esforço. 
Abertamente me ponho a admirá-las. 
Não estou traindo ninguém, advirto. 
Como pode o amor trair o amor? 
Amar o amor num outro amor 
é um ritual que, amante, me permito.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MISTÉRIO
(Affonso Romano de Sant'Anna)

O mistério começa do joelho para cima. 
O mistério começa do umbigo para baixo 
e nunca termina.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI
(Affonso Romano de Sant'Anna) 

A primeira vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na infância 
cortei o rabo de uma lagartixa 
e ele continuou se mexendo. 

De lá pra cá 
fui percebendo que as coisas permanecem 
vivas e tortas 
que o amor não acaba assim 
que é difícil extirpar o mal pela raiz. 

A segunda vez que entendi do mundo 
alguma coisa 
foi quando na adolescência me arrancaram 
do lado esquerdo três certezas 
e eu tive que seguir em frente. 

De lá pra cá 
aprendi a achar no escuro o rumo 
e sou capaz de decifrar mensagens 
seja nas nuvens 
ou no grafite de qualquer muro.

terça-feira, 24 de maio de 2011

CONJUGAÇÃO
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Eu falo 
tu ouves 
ele cala. 
Eu procuro 
tu indagas 
ele esconde. 

Eu planto 
tu adubas 
ele colhe. 

Eu ajunto 
tu conservas 
ele rouba. 

Eu defendo 
tu combates 
ele entrega. 

Eu canto 
tu calas 
ele vaia. 

Eu escrevo 
tu me lês 
ele apaga.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O DUPLO
(Affonso Romano de Sant'anna)

Debaixo de minha mesa 
tem sempre um cão faminto 
-que me alimenta a tristeza. 
Debaixo de minha cama 
tem sempre um fantasma vivo 
-que perturba quem me ama. 

Debaixo de minha pele 
alguém me olha esquisito 
-pensando que eu sou ele. 

Debaixo de minha escrita 
há sangue em lugar de tinta 
-e alguém calado que grita.

domingo, 22 de maio de 2011

ASSOMBROS
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.