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sábado, 18 de dezembro de 2010

NASCI ANTES DO TEMPO
(Cora Coralina)


Tudo que criei e defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim 

acontecia a alguem:
Fulano nasceu antes do tempo.
Guardei

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
Nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou.
Você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ESTA É A TUA SAFRA
(Cora Coralina)

Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem digam,
coitada da mamãe...
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores. 

Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das gerações.

Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.

Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.

Tua vida é apagada. Acendo o fogo nas geleiras que te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade humana.

Esta é a tua safra.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CONSIDERAÇÕES DE ANINHA
(Cora Coralina)
 
Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

MEU EPITÁFIO
(Cora Coralina)

Morta... serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TODAS AS VIDAS
(Cora Coralina)

Vive dentro de mim 
uma cabocla velha 
de mau-olhado, 
acocorada ao pé do borralho, 
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço... 
Ogum. Orixá. 
Macumba, terreiro. 
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho. 
Seu cheiro gostoso 
d'água e sabão. 
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, 
pedra de anil.
Sua coroa verde de São-caetano.

Vive dentro de mim 
a mulher cozinheira. 
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro. 
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco. 
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim 
a mulher do povo. 
Bem proletária. 
Bem linguaruda, 
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha, 
e filharada. 

Vive dentro de mim
a mulher roceira. 
- Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira. 
Madrugadeira. 
Analfabeta. 
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos, 
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida. 
Minha irmãzinha... 
tão desprezada, 
tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado. 

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida - 
a vida mera das obscuras!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

LEMBRANÇAS DE ANINHA (COLHE DOS VENTOS PLANTADORES...)
(Cora Coralina)

Colhe dos ventos plantadores que sabem com jeito e experiência
debulhar as espigas do passado e dar vida aos cereais da vivência.
Quanta informação antiga, quanta sabedoria inaproveitada...
O passado não volta, nem os mortos deixam suas covas
para contar estórias aos vivos.
Ninguém me alertou o entendimento. Meu avô, tia Nhorita, tia Nhá-Bá,
Tio Jacinto, Dindinha, a grande mágica Dindinha.
Alguns estranhos diziam: Dona Dindinha.
Passei pelas minas e não soube mineirar,
daí a cascalheira das minhas frustrações.

domingo, 12 de dezembro de 2010

DAS PEDRAS
(Cora Coralina)

Ajuntei todas as pedras 
que vieram sobre mim. 
Levantei uma escada muito alta 
e no alto subi. 
Teci um tapete floreado 
e no sonho me perdi. 

Uma estrada, 
um leito, 
uma casa, 
um companheiro. 
Tudo de pedra. 

Entre pedras 
cresceu a minha poesia. 
Minha vida... 
Quebrando pedras 
e plantando flores. 

Entre pedras que me esmagavam 
Levantei a pedra rude 
dos meus versos.