NASCI ANTES DO TEMPO
(Cora Coralina)
Tudo que criei e defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?
Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguem:
Fulano nasceu antes do tempo.
Guardei
Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
Nasci antes do tempo.
Alguém me retrucou.
Você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.
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sábado, 18 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
ESTA É A TUA SAFRA
(Cora Coralina)
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem digam,
coitada da mamãe...
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das gerações.
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
Tua vida é apagada. Acendo o fogo nas geleiras que te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade humana.
Esta é a tua safra.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
MEU EPITÁFIO
(Cora Coralina)
Morta... serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
TODAS AS VIDAS
(Cora Coralina)
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto de terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
LEMBRANÇAS DE ANINHA (COLHE DOS VENTOS PLANTADORES...)
(Cora Coralina)
Colhe dos ventos plantadores que sabem com jeito e experiência
debulhar as espigas do passado e dar vida aos cereais da vivência.
Quanta informação antiga, quanta sabedoria inaproveitada...
O passado não volta, nem os mortos deixam suas covas
para contar estórias aos vivos.
Ninguém me alertou o entendimento. Meu avô, tia Nhorita, tia Nhá-Bá,
Tio Jacinto, Dindinha, a grande mágica Dindinha.
Alguns estranhos diziam: Dona Dindinha.
Passei pelas minas e não soube mineirar,
daí a cascalheira das minhas frustrações.
domingo, 12 de dezembro de 2010
DAS PEDRAS
(Cora Coralina)
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
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