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sábado, 13 de agosto de 2011


(Ana Cristina Cesar)

Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011


(Ana Cristina Cesar)

O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa
 
o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e
 
perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto,  garra no meu seio.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011


(Ana Cristina Cesar)

Esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

quarta-feira, 10 de agosto de 2011


(Ana Cristina César)

Um Beijo 
que tivesse um blue. 
Isto é 
imitasse feliz a delicadeza, a sua, 
assim como um tropeço 
que mergulha surdamente 
no reino expresso 
do prazer. 
Espio sem um ai 
as evoluções do teu confronto 
à minha sombra 
desde a escolha 
debruçada no menu; 
um peixe grelhado 
um namorado 
uma água 
sem gás 
de decolagem: 
leitor embevecido 
talvez ensurdecido 
"ao sucesso" 
diria meu censor 
"à escuta" 
diria meu amor

terça-feira, 9 de agosto de 2011


(Ana Cristina Cesar)

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

segunda-feira, 8 de agosto de 2011


TU QUERES SONO: DESPE-TE DOS RUÍDOS
(Ana Cristina Cesar)

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

domingo, 7 de agosto de 2011

(Ana Cristina César)

Tenho uma folha branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
          e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
          e limpa à minha espera: