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sábado, 18 de junho de 2011

PÁSSARO E MULHER
(Dora Ferreira)

Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MULHER E PÁSSARO
(Dora Ferreira)

Linha invisível
liga-me àquela andorinha: 
tato percorrendo 
um trajeto
de comunhão. O pássaro 
debate-se em meu peito. 
Ou coração? A andorinha 
se esvai na tarde. Leva consigo 
o que não sei de mim.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

HABITAS MEU CORAÇÃO
(Dora Ferreira)

Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome - és mil ressonâncias e seu eco em mim.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

AGORA
(Dora Ferreira)

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te - pai - da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
- eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
pluma apenas uma
no rio acordado.

terça-feira, 14 de junho de 2011

CHAMAR PÁSSAROS
(Dora Ferreira)

Chamar pássaros com o alpiste 
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem 
sombra de medo nessa aproximação. 
Quase me sinto gêmea do que são parados 
à beira da janela ou saltando no telhado 
recém-chegados.
A cordialidade dos pássaros é
sutil: 
afloram o coração de quem os ama. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

MURMÚRIOS
(Dora Ferreira)

Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

domingo, 12 de junho de 2011

BONECA
(Dora Ferreira)

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.