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sábado, 23 de outubro de 2010

UM INSTANTE

Aqui me tenho
Como não me 
conheço
            nem me 
quis

sem começo
nem fim

          aqui me 
tenho
          sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
        transparente

Ferreira Gullar

sexta-feira, 22 de outubro de 2010


FILHOS
A meu filho Marcos

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

Ferreira Gullar


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MEU PAI

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro


Ferreira Gullar

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

OLHAR

O que eu vejo
me atravessa
como ao ar
a ave

o que eu vejo passa
através de mim
quase fica
atrás de mim

O que eu vejo
- a montanha por exemplo
banhada de sol -
me ocupa
e sou então apenas
essa rude pedra iluminada
ou quase
se não fora
saber que a vejo.

Ferreira Gullar

terça-feira, 19 de outubro de 2010

UMA COROLA

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho-queimado
metálica

não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela

não cheira
não atrai 
não murchará

apenas fulge
em alguma parte alguma
da vida

Ferreira Gullar

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A PROPÓSITO DO NADA

sou
para o outro
este corpo esta
voz
sou o que digo
e faço
enquanto passo

mas 
para mim
só sou
se penso que sou
enfim
se sou
a consciência
de mim

e quando
vinda a morte
ela se apague
serei o que alguém acaso
salve
do olvido

já que
para mim
(lume apagado)
nunca terei existido

Ferreira Gullar

domingo, 17 de outubro de 2010

DESORDEM

 Por mais que diga
 e porque disse
 sempre restará
 no dito o mudo
 o por dizer
 já que não é da linguagem
 dizer tudo
 ou é
 se se
 entender
 que
 o que foi dito
 é o que é
 e por isso
 nada há mais por dizer

Ferreira Gullar