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sábado, 24 de setembro de 2011


OVER
(Raiça Bomfim)

Eu andava com os íntimos
expostos, o tanque transbordando
de água limpa e de água suja.
Eu nunca era de um tamanho
comportado.
Muito alegre ou muito triste,
a vida sempre me excedia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


PRENDA
(Raiça Bomfim)

Eu era uma menina inquieta que sonhava 
em ter os peitos grandes, 
um homem belo para viver e amar, 
um casal de filhos vibrantes 
e um trabalho com que arar no mundo 
qualquer tanto a mais de justiça.
O tempo meteu-me os peitos no colo 
e disse, "toma, minha filha, é o que posso 
te dar. O resto você vá inventando a ferro 
e verso".

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


FLECHA
(Raiça Bomfim)

aspirar e ocupar
este espaço lato
e vago
entre princípio e fim;

elo difuso, eco,
de nós a nós,
de mim a mim;

decurso que descrevo
com seta certa
e quase às cegas.

a verdade, meu amigo,
é esta viagem rumo
a qualquer coisa bela
que nos espera
e somos nós.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011


CONVERSA SOBRE UMA GUERRA ANTIGA (Trecho 9)
(Raiça Bomfim)

Uma coisa eu acho que há: 
tem gente que gosta de vida, 
tem gente que não. 
Mas uma pessoa que não gosta 
uma hora pode pegar de gostar, 
e o contrário também. 
O mais comum é que o gostar 
ou não gostar predomine ao largo 
e se contrarie em pequenas horas. 
Eu sou uma que gosta. 
Que gasta mais tempo gostando. 
Essa é que é minha sorte.

terça-feira, 20 de setembro de 2011


LUGAR NENHUM
(Raiça Bomfim)

É chegado o tempo
em que perco a casa 
e a pátria.
Fico vagando por sobre 
a fronteira inexata
que divide 
um bairro e outro,
uma cidade e outra,
duas pessoas.
Onde quer que eu esteja
na verdade estou
olhando pela janela
do avião ou do metrô.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


OFICIAL
(Raiça Bomfim)

especializar-me quero
é no ofício de vivente,
cumprir o expediente
com alegria e viço,
fazer o que tem que
ser feito...
carpintar
e só.

domingo, 18 de setembro de 2011

JANEIRO
(Raiça Bomfim)

Peguei a pedra
e a esfreguei nas mãos.
Pousei-a entre os seios
por amor à imagem.
Falei: meu coração
de tudo guarda parte
e tudo cabe
nesta pedra ou neste vale.
Olhei o céu de sol forte
e pássaros e abri os braços.
Quando o vento passou,
me arrumei pro futuro:
que venha o vôo,
haja traslado e errância!
Depois eu te quis
para ter ilusão.