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sábado, 15 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS PÓSTUMAS
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Nasci, cresci, reproduzi, morri.
Vários deuses jogaram-me no limbo.
Vivi a vida exata. Tal carimbo
não basta? Vale lamentar o fim?


Foi tão curta a passagem no Universo!
Nem bem a tempestade, eis a bonança.
Ah se eu sonhasse nuvens de esperança.
Mas não: postei-me vígil no chão cético.


Neste leito indolor, a letargia
da imagem de um pastor tirando a sesta
em paz, velando em fé a morte certa,
guarda um conselho de ancestral mestria.


Um susto, apenas: a monotonia
desta paz infinita ser eterna.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

AQUILO QUE É
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Exilei-me de mim para encontrar-me
refletido no mundo que me sou
em cada face em que me perco em face
do olhar modificado em que me dôo.

desisti-me de mim para ganhar-me
o bocado de mim que me escapou
de ser vazio por ser dentro em parte
alguma de mim mesmo e em parte vôo.

Tudo fora é você e nada é fora
de mim no que me cabe ser agora
que você já não cabe mais em mim.

Tudo dentro de mim é sempre fora
do que você podia ser agora
que em mim você é tudo e tudo é fim.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

TEMPORÃO
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Tempo de horas,
uma após outra.

Tempo de outrora
vem à lembrança.

Tempo de agora,
dança de espera.

Tempo demora,
passa que cansa.

Tempo de sobra,
lança de sombras.

Tempo - vindoura
dessemelhança.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

AUTO DO DEUS MORTO
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Jesus morreu nalguma cruz
e nos persegue então há séculos.
É vingativo seu espectro
e punitivo seu capuz.

Pobre Jesus! Homem qualquer,
datado num qualquer momento,
passou de ser esquecimento,
e o o mundo deu-lhe a tez da fé.

O fel da fé se faz de frente,
derrama um véu onipotente,
escurecendo o mundo à luz.

E nós, aqui, uns pobres diabos,
tomamos sonhos por pecados
e o amor pensamos ser Jesus.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

FIM DE FESTA
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Sei da verdade maiúscula
que à luz da concha traz pérola:
a vida é uma trama voluta
que se entrelaça na estética.

Sei de um vento do Universo
trazendo o sopro da vida.
Sei que venho, vejo e venço
com as armas de ser-artista.

Sei que transformo o planeta
na ponta de uma caneta,
pelo encanto e formosura.

Sei bem mais, a cruel verdade:
no bolo da realidade,
ó Arte, és só cobertura.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MINADOURO
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Escavaquei o chão dentro de mim,
lavrando em busca do cristal dos versos.
Toquei no nervo lírico e senti
a erosão evasiva do silêncio.

Há uma porta, e pela porta aberta
(se existe uma janela, está fechada)
não entra vento, pois o vento é festa
quando há portas e janelas escancaradas.

Falseio meu silêncio interrompendo-o
com solo (a dor de tudo) em timbre trêmulo,
miragem de alcançar o inexprimível.

Não sei amar. Não vi pousar um anjo
quando estrelas brilharam em teus olhos 
de ouro. Só nosso amor me faz possível.

domingo, 9 de janeiro de 2011

MUSA
(Luis Antonio Cajazeira Ramos)


Nenhum perfume disse que chegaste.
Não houve sobressaltos, nem sinais.
Chegaste, assim como quem chega, e parte
de tudo parte, para nunca mais

achar o rumo, longe do que fui.
Resta de mim somente algo de novo,
muito antigo e completo, feito fogo
ou verdade, tão novo como luz,

cidade, paz, necessidade, pão,
algo tão novo como tudo em vão.
E segue meu delírio a te seguir.

Nenhum perfume disse que partiste.
"E não partiste", meu delírio insiste.
Talvez perdido em ti dê trégua a mim.