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sábado, 9 de abril de 2011

TUA MÃO EM MIM
(Marina Colasanti)

Você me acorda no meio da noite
e eu que navegava tão distante
cravada a proa em espumas
desfraldados os sonhos
afloro de repente entre as paradas ondas dos lençóis
a boca ainda salgada mas já amarga
molhada a crina
encharcados os pêlos
na maresia que do meu corpo escorre.
Cravam-se ao fundo os dedos do desejo.
A correnteza arrasta.
Só quando o primeiro sopro escapar
entre os lábios da manhã
levantarei âncora.
Mas será tarde demais.
O sol nascente terá trancado o porto
e estarei prisioneira da vigília.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

SEXTA-FEIRA À NOITE
(Maria Colasanti)

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

ÀS SEIS DA TARDE
(Marina Colasanti)

Ás seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem 
não querem 
chorar na condução.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

PASSANDO DOS CINQÜENTA 
(Marina Colasanti)
  
Meu pescoço se enruga. 
Imagino que seja 
de mover a cabeça 
para observar a vida. 
E se enrugam as mãos 
cansadas dos seus gestos. 
E as pálpebras 
apertadas no sol. 
Só da boca não sei 
o sentido das rugas 
se dos sorrisos tantos 
ou de trancar os dentes 
sobre caladas coisas. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

FRUTOS E FLORES
(Marina Colasanti)

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

PRECISO, PARA
(Marina Colasanti)

Preciso que um barco atravesse o mar
lá longe
para sair dessa cadeira
para esquecer esse computador
e ter olhos de sal
boca de peixe
e o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne
cá dentro
para andar sobre as águas
deitar nas ilhas e 
olhar de longe esse prédio
essa sala
essa mulher sentada diante do computador
que bebe a branca luz eletrônica
e pensa no mar.

domingo, 3 de abril de 2011

ENTRE UM JOGO E OUTRO 
(Marina Colasanti)
 
Ter você nu na cama  
que deleite. 
E como a gente brinca  
e rola e ri 
para depois sentar 
nos lençóis descompostos 
o corpo ainda suado  
e continuando sempre 
o mesmo jogo 
falar a sério  
de literatura.  
  
Te beijo no cangote 
e quieta penso:  
um outro amante assim  
Senhor 
que trabalho terias  
pra me arrumar  
se me tomasses este.