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sábado, 2 de julho de 2011

AOS POETAS CLÁSSICOS
(Patativa do Assaré)

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa, 
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto. 

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva 
Pintadinha de fulô. 

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O ALCO E A GASOLINA
(Patativa do Assaré)

Neste mundo de pecado 
Ninguém qué vivê sozinho 
Quem viaja acompanhado 
Incurta mais o caminho 
Tudo que no mundo existe 
Se achando sozinho e triste, 
O alco vivia só
Sem ninguém lhe querê bem 
E a gasolina também 
Vivia no caritó.

O alco tanto sofreu
Sua dura e triste sina
Até que um dia ofreceu
Seu amô a gasolina 
Perguntou se ela queria
Ele em sua companhia,
Pois andava aperriado
Era grande o padecê
Não podia mais vivê
Sem companhêra ao seu lado.

Disse ela: dou-lhe a resposta 
Mas fazendo uma proposta 
Sei que de mim você gosta 
E eu não lhe acho tão feio 
Porém eu sou moça fina, 
Sou a prenda gasolina 
Bem recatada, granfina
E gosto muito de asseio.

Se você não é nogento 
É grande o contentamento 
E tarvez meu sofrimento 
Da solidão eu arranque, 
Nós não vamo nem casá 
Do jeito que o mundo tá 
Nós dois vamo é se juntá 
E morá dentro do tanque.

Se quisé me acompanhá 
No tanque vamo morá 
E os apusento zelá
Com carinho e com amô, 
Porém lhe dou um conseio 
Não vá fazê papé feio 
Quero limpeza e asseio 
Dentro do carboradô.

Se o meu amô armeja
E andá comigo deseja, 
É necessaro que seja 
Limpo, zeladô e esperto, 
Precisa se controlá,
Veja que eu sou minerá 
E você é vegetá,
Será que isto vai dá certo?

Disse o alco: meu benzinho 
Eu não quero é tá sozinho 
Pra gozá do teu carinho 
Todo sacrifiço faço,
Na nossa nova aliança 
Disponha de confiança 
Com a minha substança 
Eu subo até no espaço.

Quero é sê feliz agora 
Morá onde você mora 
Andá pelo mundo afora 
E a minha vida gozá, 
Entre nós não há desorde 
Basta que você concorde 
Nós se junta com as orde 
Da senhora Petrobá.

Tudo o alco prometia. 
Queria por que queriá 
Na Petrobá neste dia 
Houve uma festa danada 
A Petrobá ordenou
Um ao outro se entregou 
E o querozene chorou 
Vendo a parenta amigada.

Porém depois de algum dia 
Começou grande narquia, 
O que o alco prometia 
Sem sentimento negou, 
Fez uma ação traiçoêra 
Com a sua companhêra 
Fazendo a maió sugêra 
Dentro do carboradô.

Fez o alco uma ruína 
Prometeu a gasolina
Que seguia a diciprina 
Mas não quis lhe obedecê 
Como o cabra embriagado 
Descuidado e deslêxado 
Dêxava tudo melado, 
Agúia, bóia e giclê.

A gasolina falava
E a ele aconceiava,
Mas o alco não ligava,
Inxia o saco a zomba
Lhe respondendo, eu não ligo,
Se achá que vivê comigo
Tá sendo grande castigo
Se quêxe da Petrobá.

E assim ele permanece 
No carro a tudo aborrece, 
Se a gasolina padece
O chofé também se atrasa 
Hoje o alco veve assim 
Do jeito do cabra ruim 
Que bebe no butiquim
E vai vomitá na casa.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O DESGOSTO DO MEDÊRO
(Patativa do Assaré)

Ô Joana este mundo tem 
Sugeito com tanta faia
Que quanto mais qué sê bom 
Mais no êrro se escangaia, 
Istuda mais não prospera
E pra sê burro de vera 
Só farta levá cangaia

Ô Joana, tu já deu fé, 
Tu já prestou atenção, 
Que tanta gente que tinha 
Com nós boa relação 
Anda agora deferente 
Sem querê sabê da gente 
Pru causa das inleição?

Óia Joana, o Benedito 
Que era camarada meu 
Anda agora todo duro 
Sem querê falá com eu 
Na maió intipatia
Pruquê vota em Malaquia 
E eu vou votá no Romeu.

Se ele vota em Malaquia 
E eu no Romeu vou votá 
Cada quá tem seu partido 
Isto é munto naturá. 
Disarmonia não traz
E este motivo não faz 
Nossa relação cortá.

O Zé Lolo que me vendo 
Brincava e dizia trova 
Anda todo infarruscado 
Com certa manêra nova 
Sem morá e ingnorante, 
Com a cara do istudante 
Que não passou pela prova.

Ô meu Deus, nunca pensei 
De vê o que agora tô vendo, 
Joana, basta que eu lhe diga 
Que até mesmo o Zé Rozendo 
Anda falando grossêro
Não fala mais no dinhêro 
Que ele ficou me devendo.

Pra que tanta deferença, 
Pra que tanta cara estranha? 
O mundo intêro conhece
Que quando chega a campanha 
Tudo alegre pega fôgo, 
Inleição é como o jôgo
Quem tem mais ponto é quem ganha.

Ô meu Deus como é que eu vivo 
Sem tê comunicação?
Ô Joana, só dá vontade 
De sumi num sucavão 
Pra ninguém me aborrecê 
E somente aparecê 
Quando passá as inleição

— Medêro, não seja tolo 
Pruquê você se aperreia? 
Tudo isto é gente inconstante 
Que sempre fez ação feia,
É gente que continua 
Na mesma fase da lua, 
Crescente, minguante e cheia.

— Medêro, não entristeça 
Você não vai ficá só
O que fez o Benidito 
Zé Rozendo e Zé Loló 
Eu sei que foi munto ruim 
Porém se os home é assim 
As muié são mais pió.

— Medêro, tanta muié 
Que dizia a todo istante: 
Como é que tu vai Joaninha? 
Todo fôfa e elegante,
Pruquê voto no Romeu 
Agora passa pru eu
Com a tromba de elefante.

Eu onte vi a Francisca 
A Ginuveva e a Sofia 
Dizendo até palavrão 
Com Filismina e Maria, 
No maió ispaiafato
Pro causa dos candidato 
O Romeu e o Malaquia

Tu não vê a Zefa Peba, 
Que é até colegiá? 
Nunca mais andou aqui 
E agora vou lhe contá 
O que ela já fez comigo 
Que até merece castigo 
Mas eu vou lhe perdoar

A Zefa Peba chegou 
Reparou e não vendo eu 
Subiu na nossa carçada
Se ístícou, gunzou, se ergueu 
Com os óio de cabra morta 
E tirou da nossa porta
O retrato do Romeu.

Eu tava escondida vendo 
E achei aquilo bem chato 
Será que ela tá pensando 
Que rasgando este retrato 
O Romeu fica pequeno
E tem um voto a meno 
Para o nosso candidato?

Eu vi tudo que ela fez 
Porém não quis arengá, 
Mas no momento que vi 
A Peba se retirá , 
Provando que eu sou muié 
Agarrei outro papé 
Preguei no mesmo lugá

Por isso você Medêro
Não se importe com pagode 
Se lembre deste ditado
E com nada se incomode, 
Tudo é farta de respeito, 
"Quem é bom já nasce feito 
Quem qué se fazê não pode"

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SAUDADE
(Patativa do Assaré)

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.

terça-feira, 28 de junho de 2011

DESILUSÃO
(Patativa do Assaré)

Como a folha no vento pelo espaço
Eu sinto o coração aqui no peito,
De ilusão e de sonho já desfeito,
A bater e a pulsar com embaraço.

Se é de dia, vou indo passo a passo
Se é de noite, me estendo sobre o leito,
Para o mal incurável não há jeito,
É sem cura que eu vejo o meu fracasso.

Do parnaso não vejo o belo monte,
Minha estrela brilhante no horizonte
Me negou o seu raio de esperança,

Tudo triste em meu ser se manifesta,
Nesta vida cansada só me resta
As saudades do tempo de criança.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O BURRO
(Patativa do Assaré)

Vai ele a trote, pelo chão da serra, 
Com a vista espantada e penetrante, 
E ninguém nota em seu marchar volante, 
A estupidez que este animal encerra. 

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra, 
Sem dar uma passada para diante, 
Outras vezes, pinota, revoltante, 
E sacode o seu dono sobre a terra. 

Mas contudo! Este bruto sem noção, 
Que é capaz de fazer uma traição, 
A quem quer que lhe venha na defesa, 

É mais manso e tem mais inteligência 
Do que o sábio que trata de ciência 
E não crê no Senhor da Natureza.

domingo, 26 de junho de 2011

O PEIXE
(Patativa do Assaré)

Tendo por berço o lago cristalino, 
Folga o peixe, a nadar todo inocente, 
Medo ou receio do porvir não sente, 
Pois vive incauto do fatal destino. 

Se na ponta de um fio longo e fino 
A isca avista, ferra-a insconsciente, 
Ficando o pobre peixe de repente, 
Preso ao anzol do pescador ladino. 

O camponês, também, do nosso Estado, 
Ante a campanha eleitoral, coitado! 
Daquele peixe tem a mesma sorte. 

Antes do pleito, festa, riso e gosto, 
Depois do pleito, imposto e mais imposto. 
Pobre matuto do sertão do Norte!