Mostrando postagens com marcador Gregório de Matos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gregório de Matos. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de março de 2011

(Gregório de Matos)

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 
Depois da Luz se segue a noite escura, 
Em tristes sombras morre a formosura, 
Em contínuas tristezas a alegria. 
 
Porém se acaba o Sol, por que nascia? 
Se formosa a Luz é, por que não dura? 
Como a beleza assim se transfigura? 
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza, 
Na formosura não se dê constância, 
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância, 
E tem qualquer dos bens por natureza 
A firmeza somente na inconstância.

sexta-feira, 4 de março de 2011

(Gregório de Matos)

Ditoso aquele, e bem-aventurado,
Que longe, e apartado das demandas,
Não vê nos tribunais as apelandas
Que à vida dão fastio, e dão enfado.

Ditoso, quem povoa o despovoado,
E dormindo o seu sono entre as holandas 
Acorda ao doce som, e às vozes brandas 
Do tenro passarinho enamorado.

Se estando eu lá na Corte tão seguro
Do néscio impertinente, que porfia,
A deixei por um mal, que era futuro;

Como estaria vendo na Bahia,
Que das Cortes do mundo é vil monturo, 
O roubo, a injustiça, a tirania?

quinta-feira, 3 de março de 2011

(Gregório de Matos)

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado,  bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.

quarta-feira, 2 de março de 2011

(Gregório de Matos)

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos, 
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.

terça-feira, 1 de março de 2011

DEFINE SUA CIDADE
(Gregório de Matos)

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito: 
por bem digesto, e colheito 
só com dous ff o expõe, 
e assim quem os olhos põe 
no trato, que aqui se encerra, 
há de dizer que esta terra 
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta 
está a nossa Bahia, 
errada a ortografia, 
a grande dano está posta: 
eu quero fazer aposta 
e quero um tostão perder, 
que isso a há de perverter, 
se o furtar e o foder bem 
não são os ff que tem 
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco: 
Bahia tem letras cinco 
que são B-A-H-I-A: 
logo ninguém me dirá 
que dous ff chega a ter, 
pois nenhum contém sequer, 
salvo se em boa verdade 
são os ff da cidade 
um furtar, outro foder.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

BUSCANDO A CRISTO
(Gregório de Matos)

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SEGUNDA IMPACIÊNCIA DO POETA
(Gregório de Matos)

Cresce o desejo, falta o sofrimento, 
Sofrendo morro, morro desejando, 
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento, 
Está-me um gesto grave acobardando, 
E tenho por melhor morrer calando, 
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala, 
Porque quem temerário se abalança, 
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele, que espera se alcança, 
Quero ter por melhor morrer sem fala, 
Que falando, perder toda esperança.