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sábado, 27 de agosto de 2011


AQUI
(Francisco Alvim)

Meu corpo é o divã
à esquerda deste espelho
quantas roupas meu deus
espalhadas no soalho
e a vontade de poder
que por toda parte se vê
aqui não tem mar nem céu
e ficamos claustrófobos –
panos de chão irrisórios
do cosmo

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


EM SILÊNCIO CONVERSEMOS
(Francisco Alvim)

Que fazer deste ser 
sem prumo 
despencado do extremo de um dia e 
que o sono não recolheu? 

Não não indaguemos 
Para que indagar matéria de silêncio 
Procurar a nenhuma razão que nos explique 
e suavemente nos envolva 
em suas turvas paredes protetoras 

Nada de perguntas 
A campânula rompeu-se 
O instante nos ofusca 

A quem sobra olhos resta ver 
um ser nu a vida pouca 
Só dentes e sapatos 
de volta para casa 

Nem um passo à frente 
ou atrás 
De pés firmes 
o corpo oscilante 
neste suave embalo da mágoa 
descansemos

quinta-feira, 25 de agosto de 2011


QUASE APOSENTADO
(Francisco Alvim)
 
Da janela de meu trabalho
vejo três palmeiras  
Entre elas e eu uma rua estreita
uma lâmina de vidro
um parapeito baixo sobre o qual se amontoam fichas
           catálogos
                                                          embrulhos
As palmeiras talvez tenham a minha idade
Posso dizer-lhes
(como se a mim algum dia houvesse dito)
— Somos moços
vamos ver o que a vida ainda nos reserva
A tarde é uma velha doente, ressentida com o mundo
em cujas veias o sangue tornou-se espesso e difícil
de cujas folhagens escorre uma brisa macilenta

quarta-feira, 24 de agosto de 2011


LUZ
(Francisco Alvim)
 
Em cima da cômoda
uma lata, dois jarros, alguns objetos
entre eles três antigas estampas
Na mesa duas toalhas dobradas
uma verde, outra azul
um lençol também dobrado livros chaveiro
Sob o braço esquerdo
um caderno de capa preta
Em frente uma cama
cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
Na parede alguns quadros
 
Um relógio, um copo

terça-feira, 23 de agosto de 2011


PAISAGEM
(Francisco Alvim)

O telefone arqueja sobre a mesa
giram os cataventos na colina
surgem nucas do fundo de gavetas
recobrem-se de relva as piscinas
Minha gravata pelo céu adeja
ao embalo desta brisa vespertina
Diluiu-se no ar a única defesa
interposta entre o canteiro e a usina
Ainda está gravado no lajedo
(rastro de serpente) a queda do irmão
ou um outro gasto travesti do medo
E sobre o casario um astro míope
parece contemplar a sucessão
infinita de enganos que amor move

segunda-feira, 22 de agosto de 2011


UM HOMEM
(Francisco Alvim)

De regresso ao mundo e a meu corpo
As estradas já não anoitecem à sombra de meus gestos
nem meu rastro lhes imprime qualquer destino
Sou a água em cuja pele os astros se detêm
A pedra que conforma o bojo das montanhas
O vôo dos ares

domingo, 21 de agosto de 2011


MANHÃ DE SOL COM AZULEJOS 
(Francisco Alvim)
  
Tudo se veste da cor de teu vestido azul  
Tudo - menos a dona do vestido:  
meus olhos te passeiam nua  
pela grama do campo de golfe 
 
Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga não temas  
meu coração; 
é apenas um chapéu surrado  
que humildemente estendo  
para colher um pouco de tua alegria  
de tua graça distraída  
de teu dia