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sábado, 29 de janeiro de 2011

FRONTEIRAS
(José Inácio Vieira de Melo)
 
Perdido sem lua nem uivo,
para mim só tem um caminho:
riscar esporas no vazio.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A ROSA VIVA
(José Inácio Vieira de Melo)

Estas rosas que vês em mim são brasas.
Por isso, muito cuidado ao tocar
em suas pedras - pétalas sagradas.

Minhas palavras ardem a forjar
estas flores que canto por prazer
e que dão febre e fazem delirar.

Meu coração é mesmo a rosa viva.
Por isso, muito carinho ao pegar
suas pétalas - pedras tão aflitas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ESTRANGEIRO
(José Inácio Vieira de Melo)

Quando chegaste por essas paragens
com tua bússola indicando o norte,
com teus espelhos pra fazer barganha, 
não parei para te compreender.

Tu trazias molduras tão distantes
de tudo o que a terra me oferecia.
Foste forjando tua construção
para criar uma nova paisagem.

Tua verdade era devastadora.
Não fazias conta das minhas cores.
Agora, ao me olhar no espelho, não vejo 
nem o vulto do meu rio liberto.

Perambulo sem ter rumo certo:
estrangeiro, de mim tão disperso.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A ROSA DE VIRGÍLIO
(José Inácio Vieira de Melo)

Um dia deram-me de presente uma rosa.
Dos ventos suas pétalas eram filhas.
Da puta que tem a rosa mais quente lembrei-me:
aquela que diz que uma rosa é uma rosa
                                                         é uma rosa.

E quando disparei a rosa em meu juízo,
senti um sossego encarnado:
a beleza vermelha do sangue na flor.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

AMULETO
(José Inácio Vieira de Melo)

A tua cabeça é um precioso amuleto dentro da minha cabeça.
Quando boto meus olhos dentro de tua cabeça, eles ficam rubis.
E o mundo, encarnado como apenas um espanhol sabe sentir:
o mundo fica rojo e, em minhas veias, a seiva das rosas escarlates.

Sim, a tua cabeça povoa a minha cabeça - é o meu planeta.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

FUGA
(José Inácio Vieira de Melo)

As crianças galopam goiabeiras,
sentem o gosto da paisagem de êxtase.
As crianças são deuses, mas não trazem
o germe do sofrimento, só brilham.

Quando o homem chega dentro da criança,
o infinito cai e a casa começa
a ter entranhas, a criar paredes.
Quem mais sofre com isso são as pedras:

sem sangue, sem respiração, sem ritmo,
seus escombros preenchem toda terra;
seus sonhos - fuzilados no horizonte.

Eu ainda saio dessa ciranda,
entro no primeiro buraco negro
e vou me inventar em outra galáxia.

domingo, 23 de janeiro de 2011

TRANSMUTAÇÃO
(José Inácio Vieira de Melo)

Eu jogo uma pedra em tua cabeça para que ela cresça em dor.
Para que, plantada em tua cabeça, a pedra frequente a tua existência
e desperte em ti a vontade de plantar pedras em outras cabeças.

Eu tenho uma vontade enorme de que um dia toda a humanidade
jogue pedras e que Deus receba a pedrada certeira, exata.