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sábado, 26 de março de 2011

PRECISÃO 
(Clarice Lispector)

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.



* os poemas dessa semana são resultado do arranjo em versos feitos por Antônio Damázio de textos de Clarice Lispector

sexta-feira, 25 de março de 2011

SAUDADE
(Clarice Lispector) 

Saudade é um pouco como fome. 
Só passa quando se come a presença. 
Mas às vezes a saudade é tão profunda 
que a presença é pouco: 
quer-se absorver a outra pessoa toda. 
Essa vontade de um ser o outro 
para uma unificação inteira 
é um dos sentimentos mais urgentes 
que se tem na vida. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

MEU DEUS, ME DÊ A CORAGEM
(Clarice Lispector)

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia. 
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar. 

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUERO ESCREVER O BORRÃO VERMELHO DE SANGUE
(Clarice Lispector)

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

terça-feira, 22 de março de 2011

MAS HÁ A VIDA
(Clarice Lispector)

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, 
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A LUCIDEZ PERIGOSA
(Clarice Lispector)

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum: 
é uma lucidez vazia, como explicar? 
Assim como um cálculo matemático perfeito 
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer  
vendo claramente o vazio. 
E nem entendo aquilo que entendo: 
pois estou infinitamente maior que eu mesma, 
e não me alcanço.

Além do que: 
que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez 
pode-se tornar o inferno humano 
– já me aconteceu antes.

Pois sei que 
– em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade – 
essa clareza de realidade 
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus, 
porque ela não me serve para viver os dias. 
Ajudai-me a de novo consistir 
dos modos possíveis. 
Eu consisto, 
eu consisto, 
amém.

domingo, 20 de março de 2011

DÁ-ME A TUA MÃO
(Clarice Lispector)

Dá-me a tua mão:  
Vou agora te contar  
como entrei no inexpressivo  
que sempre foi a minha busca cega e secreta.  
De como entrei  
naquilo que existe entre o número um e o número dois,  
de como vi a linha de mistério e fogo,  
e que é linha sub-reptícia. 

Entre duas notas de música existe uma nota,  
entre dois fatos existe um fato,  
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam  
existe um intervalo de espaço,  
existe um sentir que é entre o sentir  
- nos interstícios da matéria primordial  
está a linha de mistério e fogo  
que é a respiração do mundo,  
e a respiração contínua do mundo  
é aquilo que ouvimos  
e chamamos de silêncio.