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sábado, 19 de março de 2011

A CASA ANTIGA
(Kátia Borges)


                 Uma casa constrói-se ao lado dum caminho.
                                                                                  Vieira Calado

Vivia em conserto, a casa antiga.
Mudavam as telhas, compravam madeira,
ajeitavam a cumeeira, renovavam as ripas.

A casa antiga, apenas 25 metros quadrados,
tudo que restara do passado e da família,
na vila, na vida. E não havia outro modo
de ter um teto. Feito enxurrada,
mais e mais trocados iam na reforma.

E as janelas caindo, o beiral carcomido,
o caibro, a terça o pendural. E pedreiros
visitando lojas, carros cheios de tijolos,
meio tortos, e a casa antiga. De nada adiantava

pintar as paredes e portas,  pôr cores mais sóbrias,
caprichar nas tintas. A cada chuva, o mofo
parecia brotar do invisível, esparramando, negro,

venenoso visgo, a engolir todo o esforço,
o projeto de mudança, o viço.

sexta-feira, 18 de março de 2011

AMIGO SECRETO
(Kátia Borges)

Que seja um livro,
talvez daguerreótipos.
Que seja, vindo
da livraria moderna,
vindo do sebo, antigo,
vindo do coração
 
de quem mergulha
fundo, a tarde inteira,
nos fundos da loja,
queira Deus, queira
que seja um livro
 
este pacote, de papel
brilhante, que me entrega.

quinta-feira, 17 de março de 2011

DRUMMOND
(Kátia Borges)

Perdi o bonde e a
Esperança. São Longuinho.
Se achar, dou três pulinhos
e não volto pálido pra casa.

quarta-feira, 16 de março de 2011

RETRATO
(Kátia Borges)

Já estamos todos mortos
quando vivos nessas poses
que emprestam aos retratos
certo ar de documento

do quanto fomos, gente,
para algum arremedo
de posteridade. Ah, estamos
mesmo todos mortos

quando abrimos os olhos
e arregalamos os dentes
diante de um fotógrafo.

terça-feira, 15 de março de 2011

FRAGILIDADE
(Kátia Borges)


                       Para dar uma esperança mais triste ao fim do meu dia.
                                                                                           Manuel Bandeira

Sempre que pousava uma esperança perto,
– e éramos crianças – ela parecia um dinossauro.
Pai e mãe advertiam se queríamos machucá-la
na crueldade da infância:
“É só um inseto que traz bons presságios”.
A gente ficava olhando aquele bicho
bom de esmagar entre as mãos.

Só adultos, entendemos
a fragilidade da esperança.

segunda-feira, 14 de março de 2011


DESERTO
(Kátia Borges)

Eu te asseguro que nunca estive só
mesmo quando o mundo
inteiro pousou seu peso
sobre o meu ombro. E muito
menos quando o vento
arremessou a vida.  Como uma
carícia violenta, em meu rosto.

domingo, 13 de março de 2011

A LUA E A NOITE
(Kátia Borges)
 
Fuga. É só no que penso.
Um ponto, pêndulo,
no qual se dependura a vida toda.
 
Ainda criança, lendo Poe.
As letras escorrendo, veias adentro.
Caminhos de estranheza veias adentro.
 
A vida toda lendo,
dependurada em um pêndulo.
A vida toda trancada fora, por dentro.